ReportagemA cidade sem carroNo Pará, há uma pequena cidade onde os automóveis não têm vez. Mas nem por isso o pessoal deixa de passear sobre quatro rodas
por Henrique Skujis fotos Maurício de Paiva
Em Afuá, ninguém tem carro e ninguém pisa no chão. Seus moradores vivem em palafitas e caminham sobre pontes de madeira que ligam as casas. O solo, permanentemente alagado pelo rio que banha a cidade, fica cerca de 1 metro abaixo de tudo. Por isso, a cidade paraense apelidou-se Veneza Marajoara. E por isso, também, a ausência total de carros – pelo menos de carros convencionais. Por lá, surgiu uma espécie automobilística que faz tanto sucesso e provoca tantos desejos quanto os carros nas sociedades motorizadas. Batizada de bicitáxi, a invenção saiu da cabeça do afuaense Raimundo do Socorro Gonçalves, o Sarito. Por décadas, Afuá, fundada em 1871, viveu a pé ou de bicicleta. Mas o crescimento da cidade despertou em Sarito a necessidade de criar um meio de locomoção para que as pessoas pudessem sair acompanhadas. “Eu queria passear com a minha família e não tinha como”, explica Sarito, casado e pai de quatro crianças.
Em sua oficina nos fundos de casa, ele construiu o protótipo de madeira em agosto de 1995. “Quando saí pra passear, o pessoal cresceu o olho e começou a copiar”, afirma. Inicialmente, a máquina tinha três rodas. Logo, modernizada, ganhou a quarta. Segundo a prefeitura, pelas passarelas de madeira de Afuá rodam quase 100 bicitáxis – todos produzidos sobre o corpo de duas bicicletas colocadas lado a lado. Para agüentar o peso extra, o conjunto recebe rodas mais resistentes e pneus do tipo cargueiro. As pedaladas ficam mais leves com a instalação de uma coroa traseira maior na corrente dos pedais. Mas tem quem prefira a coroa menor para ganhar velocidade.
Sim, o afuaense também dá suas aceleradas ao volante (volante mesmo, não é guidão). E, como não há sinal de trânsito e as vias não são largas, ocorrem acidentes. “É coisa leve”, afirma o balconista Doranildo Almeida, de 23 anos. Ele transformou duas bicicletas em uma Ferrari. A carenagem vermelha recebeu aerofólio e o logotipo da escuderia italiana. A coroa escolhida foi a pequena, “pra ganhar torque”. E o volante é acionado por uma corrente. “Fica molinho, igual a direção hidráulica”, compara. Sua Ferrari tem ainda faróis dianteiros, pisca, CD player e duas caixas de som emprestadas de um aparelho 3-em-1 – os motoristas de lá também têm a estranha mania de ouvir som no último volume: no porta-malas de muitos bicitáxis são colocados subwoofers com até 12 polegadas. Ao todo, Doranildo, fã do piloto Rubens Barrichello, calcula ter investido 2500 reais no carro.
Nas noites de sexta e sábado, a maioria dos bicitáxis sai das garagens. Jovens se reúnem na praça, casais namoram pedalando e senhores vão visitar os amigos. Durante a semana, os carrinhos levam o afuaense às compras e ao trabalho. “Para chegar ao meu emprego, levo quase 15 minutos a pé. De carro, demoro menos de 10”, diz Ciça Cardoso, de 29 anos, que mandou instalar o sistema de som e a capota. O comerciante Maurélio Pacheco de Oliveira, de 33 anos, é outro apaixonado pelas quatro rodas. “Já que não podemos ter um carro de verdade, o jeito é caprichar no bicitáxi.” O dele tem capota, bancos estofados, luz de freio, subwoofer, porta-CDs e volante Cougar com buzina. “É como na cidade. Todo mundo quer ter o melhor.”
Reportagem - A cidade sem carroMotor é proibido por lei - Augusto Moreira, fã do Fiesta, que até escreveu o nome do modelo da Ford, investiu 2750 reais em seu bicitáxi. Apesar da cobiça de vários pretendentes, não vende seu veículo. O mercado de bicitáxis usados em Afuá é relativamente movimentado. Por ser difícil encontrar bicicletas pequenas em Macapá (AP), a capital mais próxima, o interessado acaba olhando com atenção e generosidade financeira para os modelos existentes. O turista também pode optar por passear de bicitáxi por Afuá. A locação por hora custa de 5 reais (sem som) a 8 reais (com som). Não é necessária habilitação mas, devido ao trânsito que às vezes se forma nas ruas estreitas, um pouco de prática cai bem. “Não é qualquer um que sai pedalando por aí”, diz Sarito.
Os próximos lampejos do inventor, também chamado de Professor Pardal e até de Santos-Dumont, é colocar amortecedores e bolar um jeito de fazer a estrutura ser dobrável. “Tem muita gente de fora que quer comprar. Afuá pode começar a exportar bicitáxis”, afirma ele. Pelo menos Inajá, o município vizinho, já comprou duas unidades. Motor? Nem pensar. É proibido por lei municipal. No momento, Afuá vive dividida entre os que querem ver as ruas de madeira preservadas e os que preferem as vias de concreto, que já tomam 10% da cidade. A vantagem da substituição é a durabilidade: as ruas de madeira requerem manutenção constante. Por outro lado, o concreto vem tornando a cidade mais quente e tirando boa parte do charme da cidade sem carros, que no ano que vem se prepara para comemorar dez anos de bicitáxi.
Impressões ao dirigirAo pedalar pelas ruas de Afuá, por várias vezes foi preciso meter o pé no freio (instalado no assoalho) com medo de raspar no carro que vinha no sentido contrário ou até de desabar das ruas de madeira. Os pedestres, como se tivessem olho na nuca, abrem passagem para ajudar o trânsito a fluir pelas estreitas ruas. Sem diferencial, os bicitáxis não são chegados à curvas fechadas. E o volante também não tem aquela precisão. Mas nada que represente dificuldade para os pilotos locais mais experientes.

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